5 de mai de 2011

Viagem em Dígitos Binários

Transition, Concept.

Trial, Descent, Tribulation. Growth. Progress.

Beginning.

Discovery, Trepidation. Nurture, Exploration, Determination.

Control. Accomplishment. Realization.

Power, Id. Conflict, Ego. Humility. Super-Ego, Collective. Confidence.

Inspiration. Impetus, Strength, Bravery. Tenacity, Conviction.

Anticipation.

Triumph! Fortitude, Admiration!

Support? Pursuit.

Determination, Patience.

Desperation... Frustration... Anger...

Fall.

Sorrow...

Truth.

Departure, Arrival: Home.

Epiphany, Perception. Catharsis.

Illumination.

Completion.

End.

9 de jan de 2011

Entrevista de Carlo Della Prenza à CdM

DA LUZ À ESCURIDÃO
A mudança de ares de Carlo della Prenza

O primeiro trabalho de Carlo della Prenza, intitulado "Feather Falling in Love" ("Caindo Suavemente no Amor", numa tradução livre) deu ao bardo de Waterdeep uma enorme fama. Clássicos como "You are the Flayer of my Mind" e "Penalty for Charming Saves" ficaram muito tempo nas listas de músicas mais cantadas nas tavernas de Faerun.

Com o lançamento de seu segundo álbum, "One Dense Illusion", muitos dos fãs se decepcionaram um pouco, pois trata-se de uma compilação de músicas mais pesadas, menos alegres que as do disco anterior. A crítica especializada, no entanto, só teceu elogios, dizendo que a nova fase de Carlo era sua "maturidade musical". O disco foi indicado como melhor do ano na categoria Alternativo no Waterdeep Music Awards.

A revista Clérigos da Música, através de uma versão especial da magia Sending criada pelos magos da redação, conseguiu entrar em contato com Carlo durante sua incursão no Underdark. Ele falou sobre a mudança de direção na sua música, as críticas ao seu mais recente trabalho e as influências que teve no Underdark. Ainda revelou que está trabalhando num terceiro álbum, que será ainda mais introspectivo que o segundo. Confira a entrevista abaixo.



Clérigos da Música: Olá, senhor Carlo della Prenza? Desculpe se te assustei.

Carlo della Prenza: Tudo bem, Lydia. Aqui embaixo estamos sempre tão atentos que praticamente nada nos assusta.

CdM: O senhor me reconhece?

Carlo: Mas é claro. Conheço a sua revista, e, naturalmente, a repórter mais bonita (risos). Presumo que querem uma entrevista.

CdM: Sim, é possível? Não sei se é um bom momento...

Carlo: Não se preocupe. Quando eu precisar de mais concentração, eu aviso a você.

CdM: Bom, então, bom dia para o senhor.

Carlo: É dia? Eu não saberia dizer, aqui é sempre noite e escuro. Bom dia pra você também.

CdM: Carlo, eu queria que o senhor falasse um pouco sobre o seu novo álbum, "One Dense Illusion". A crítica disse que você amadureceu em relação ao seu trabalho anterior...

Carlo: (pausa) Eu não diria que "amadurecer" é a palavra certa. Acho que eu endureci mais. Tomei mais pancadas na vida.

CdM: Por causa da sua experiência no Underdark?

Carlo: Certamente.

CdM: Mas quais foram exatamente os fatos que influenciaram tanto na composição deste álbum?

Carlo: Lydia, a vida na superfície é muito simples, eu diria até mais fácil, se comparada ao que vivemos aqui. À medida que eu e meus companheiros avançávamos, íamos ficando cada vez mais introspectivos e fechados. Parece-me que, aqui embaixo, a falta de alguns elementos que consideramos cotidianos na superfície nos torna mais "egoístas de pensamento", por assim dizer.

CdM: Que elementos seriam esses?

Carlo: Cores. Aqui é tudo cinza, até os monstros. Eu até queria ver um dragão vermelho ou verde só pra poder estimular meus olhos um pouco (risos). E também o sol. Sem ele, perde-se a noção de tempo. Horas parecem meses, e meses parecem anos.

CdM: Foi por isso que o senhor compôs "They Cast Enlarge in the Time"?

Carlo: Sim. Essa música fala sobre isso, como o tempo é ao mesmo tempo, absoluto e relativo.

CdM: E quem são "eles" no título da música?

Carlo: Ninguém específico. Mas talvez represente o Underdark, que, apesar de ser um lugar, sinto como se fossem milhares de pessoas invisíveis e silenciosas te observando a todo tempo.

CdM: De onde vem o título do álbum?

Carlo: Foi por causa do meu amigo, que Helm o tenha, Sengir Fanghor. Houve um momento em que chegamos a uma passagem lateral que estava fechada com uma ilusão, mas não era uma ilusão comum, pois mesmo sabendo que era uma, não conseguíamos atravessá-la. Ele disse que ela parecia "densa" demais. Foi então que eu tive a idéia.

CdM: A morte de Sengir também influenciou na composição, eu imagino.

Carlo: Sengir não morreu. Mas também não está mais entre nós. Depois que ele partiu, eu finalizei o disco com a última música.

CdM: Com este álbum, o senhor recebeu algumas críticas dos seus fãs anteriores, por causa da mudança do "clima" do álbum. O que o senhor acha disso?

Carlo: Eu acho que eles têm um pouco de razão. Não posso evitar, sou influenciado por minhas próprias experiências. Não tinha como fazer músicas alegrinhas e românticas como as que eu tinha feito antes. Não tinha clima.

(Nesse momento, Carlo olha subitamente para o lado.)

Carlo: Lydia, com licença, sim? Estão precisando de mim aqui, volte a me contactar em mais ou menos uma hora, ok?

CdM: Claro, senhor Carlo. Até logo.

Carlo: Até logo.

(A ilusão de Carlo della Prenza que flutuava na redação sacou um crossbow e sumiu. Uma hora depois, voltamos a entrar em contato. A imagem do bardo era diferente, ele possuía alguns cortes nos braços e uma flecha fincada num deles. Tinha uma certa dificuldade de falar e parecia muito fraco.)

CdM: Carlo, o senhor está bem?

Carlo: Não se preocupe, Lydia. Tivemos de... enfrentar alguns adversários aqui. Nada que eu-- que eu não esteja acostumado. Podemos prosseguir.

(Uma mão um tanto gorda apareceu na ilusão e tocou o ombro de Carlo. Subitamente a aparência do bardo melhorou e ele já falava normalmente).

Carlo: Ah, obrigado, Gottard.

CdM: Pois bem, o que os seus fãs podem esperar daqui pra frente?

Carlo: Eu estou trabalhando em mais um disco. Será um disco tão "dark" - ou, mais apropriadamente, "underdark" - como o segundo, mas dessa vez voltado mais para o interior, para os sentimentos, ao invés de experiências externas.

CdM: E pra quando está previsto o lançamento?

Carlo: Assim que eu terminar, mas não sei quando será isso. Como disse, a noção de tempo aqui embaixo é perdida completamente.

CdM: Já tem nome?

Carlo: Ainda não, mas com certeza terá uma mulher na capa (risos). Já tenho algums idéias. Não vou dizer pra não estragar a surpresa.

CdM: É claro. O senhor pretende voltar à superfície?

Carlo: Com certeza. Eu quero ver o sol de novo. A neve e as flores... E as mulheres bonitas da superfície. Estou cansado de monstros.

CdM: As notícias são de que o senhor anda com uma elfa muito bela...

Carlo: De fato, Ëarinë é muito bela. Mas é muito fechada. Inclusive, desconfio que ela seja "do mesmo time" que eu. Mas tudo bem, ela é companheira de trabalho.

CdM: Bom, então vou encerrando por aqui. Obrigada pela entrevista.

Carlo: Por nada, Lydia. É sempre bom falar com pessoas diferentes. Ainda mais sendo tão bela como você. Somente o fato de ver a sua ilusão flutuando na minha frente já me conforta um pouco.

CdM: (risos) Ora, muito obrigada, senhor Carlo.

Carlo: Quando eu voltar à superfície, gostaria de conceder uma entrevista exclusiva a você, se você quiser é claro.

CdM: ... sim, será um prazer. Obrigada.

Carlo: Por nada. Coloque uma foto minha bem legal na reportagem, hein?



FEATHER FALLING IN LOVE


1. Love has no Surprise Round
2. Please, Brake the Armor of My Heart
3. Carlo's Uncontrollable Hideous Happiness
4. The Tavern Waitress
5. Power Word: Love
6. Wild Magic for a Wild Girl
7. You are the Flayer of my Mind
8. Seduction is not a Spell
9. I See You Everywhere (The Mirror Image of You)
10. Penalty for Charming Saves
11. (Feather) Falling in Love



ONE DENSE ILLUSION


1. Damn Dire Rats
2. Don't Go Trolling on Me
3. The Grey People and The Grey Matter
4. Snakes and Pools (Goodbye, Little Cleric)
5. They Cast Enlarge in the Time
6. You've Returned Different, My Friend
7. Invisible Sunrise
8. Listen to Me!
9. The Son of the Eye
10. I Thought Hell Was Way Below [bonus track]

5 de jan de 2011

Síndrome do Guarda-Chuva

Era comum até alguns anos atrás que, na temporada chuvosa, eu saísse de casa sem um guarda-chuva. Em parte porque eu não tinha um, e em parte porque, não sei porque cargas d'água (trocadilho não intencional) eu achava que não era necessário.

Muito bem, depois de alguns momentos com e sem guarda-chuva nos últimos dias, estou começando a revisitar este conceito.

Veja: nos dias em que eu não tinha guarda-chuva, eu sempre procurava abrigos e marquises para me proteger dela. Mas como não gosto de ficar parado muito tempo no mesmo lugar - a não ser naqueles dilúvios que causam enxurradas invadindo as calçadas - eu sempre vou "pulando" de marquise em marquise, e no caminho entre elas é inevitável molhar. Mas pelo menos é por um período de tempo curto, e sempre olhando o chão para achar o caminho menos molhado.

Eu chegava aos meus destinos um pouco mais molhado, mas uniformemente molhado - da cabeça aos pés. E nada que uma meia hora não faça evaporar.

Porém, nos dias em que eu estou com um guarda-chva, me sinto imune à água. Ando nas ruas como se tivesse fazendo sol. O guarda-chuva está longe de ser a proteção total das precipitações, mas o usamos como se fosse. Não escolhemos o caminho, vamos no caminho habitual dos dias secos. Não andamos mais rápido pra tomar menos chuva, é a velocidade normal.

O resultado é que, ao chegar ao meu destino, estou com a cabeça e o rosto completamente secos, mas com a barra das calças e o tênis como se tivesse sido mergulhados numa piscina. A mochila, que fica pra trás, um pouco além da área de proteção que o guarda-chuva oferece, está mais vulnerável à água e acaba tomando mais chuva também. Já enchi de rugas um livro que nem era meu por causa disso.

Eu disse no início deste artigo que eu revisitava o conceito de que um guarda-chuva não é necessário; mas pensando melhor, acho que é sim, desde que você o use como se não tivesse um. Mas lembre-se que tem um quando for se locomover, senão eles vão pra terra dos duendes que acham as coisas perdidas, transformam em clipes de papel e deixam em outro lugar para serem achados.

Mas isso é uma outra história.

1 de dez de 2010

Canção à Lua Nova

Quando você voltar,
De uma manhã à outra eu sorrirei,
E sobre tenras flores dormirei,
Em teu seio e em meus sonhos,
E entre duendes, sempre risonhos.

Quando você voltar,
Na Terra nada se apagará.
Em toda a sua chama se lerá
A cor da vida que me cativou
Trazendo-me cá pra onde estou.

Oh! Lua de tantas canções e poemas,
De tantas metáforas, centenas,
De fases escondidas, nuas,
Outrora dando a cara nas ruas,
Rainha oculta de um reino escancarado,
Pequena luz de um dia ensolarado!

Volte, volte para a noite escura
Que as estrelas pedem tua cura;
Que eu (ai de mim!) te espero,
Cão solitário, uivo - Te quero...

Oh! Lua de prata espelhada, só,
Trocando seu pirlimpimpim em pó,
Lua dourada, avermelhada, de mel,
Ostentando um brilho único no céu,
Mãe protetora dos enamorados,
Encantadora dos seres encantados!

Volte, volte pra teu lugar de direito
Há estacas rodeando meu peito,
Que eu (ai de mim!) te rogo:
- Volta, volta, volta logo!

3 de nov de 2010

Liara

A vista era linda lá de cima. A leste, dava pra ver, de maneira clara e cristalina, toda a alva orla da praia. O mar sem ondas mostrava a sua grandiosidade e, simultaneamente, uma calma instigante. Era lindo demais ver aquela imensidão plana, indo até onde a vista alcançava.

Em meio ao seu deleite visual, Liara percebeu três reflexos na água. Acima, elas praticamente faziam um triângulo perfeito. Lembrou-se da história das luas, contada a ela por Ani, seu pai.

"Labela é a lua superior. Ela possui uma cor amarelada, quase como se tivesse sido encoberta por uma neblina dourada. Ela é a maior das luas, e significa aquilo que se deseja ser, sem ofuscar os outros e trilhando caminhos próprios.

"Na base, a lua à esquerda e conhecida por Tímira. A cada 37 translações ela se esconde parcialmente atrás de Labela. Possui uma coloração acinzentada, quase escura. É a unica lua que pode ter seu brilho bloqueado pelas nuvens. E é a menor das luas. Significa aquilo que se acha que é, procurando abrigo nas horas difíceis e sem méritos proprios.

"A última das luas, à direita da base do triângulo, é chamada de Polina. Seu brilho é o mais forte de todos: um luar alvo, branco, ofuscante. É considerada a lua independente, pois não esconde nem é escondida por nenhuma das outras duas, porem é tocada por Labela e Tímira 5 translações após o eclipse delas. Significa o que se é de verdade: em harmonia com os outros e sempre emanando poder e sentimentos."

Uma lágrima correu pelo seu rosto. Ani era um pai maravilhoso, mas tinha épocas em que ficava estranho, principalmente apos a morte de Luana, sua esposa e mãe de Liara.

Voltou a admirar a paisagem. Do outro lado, as copas das árvores na floresta pareciam se unir e formar apenas uma única grande árvore. Estava a uma altura considerável para não distinguir as folhagens. Os tons de verde e marrom se uniam num degradè perfeito. Era um verdadeiro tapete.

Percebeu uma clareira na floresta. Liara assustou-se, pois sempre ficava ali a admirar a beleza daquele mundo, Faíne, as estrelas, as luas, o mar e a floresta. Jamais havia percebido aquela clareira...

Sem hesitar, Liara abriu suas asas de fada e saiu da nuvem na qual estava sentada, indo em direção à clareira desconhecida...

22 de out de 2010

Poslúdio

Um ruído leve de vento é o único som da noite. Acima, um céu cinzento é o cenário para a rua deserta, abaixo da ponte. Os prédios em volta parecem todos abandonados, mas Jackie, a líder do grupo, sabe que nunca se pode confiar no que se vê no Anel Urbano. Ela era a especialista em inteligência e tática de guerrilha dos Grells, como eles gostavam de se chamar. "Somos livres como pássaros, mas nosso cérebro é tudo", dizia ela. Daí o nome.

Parou de limpar a sua bazuca portátil para observar Claude, seu imediato, especialista em minas terrestres e o "tanque" do grupo. Os olhos espelhados dele refletiam o céu: ele tinha substituído os originais por displays HUD de alta definição em uma clínica de tecno-cirurgia clandestina no México. Não tinha dinheiro para pagar um tecno-médico oficial. Ele parecia estar observando a rua, perpendicular à ponte abaixo deles, mas Jackie sabia que ele enxergava vários tipos de dados por sobre a imagem da rua, em tempo real; afinal, seus implantes tinham uma ligação direta com uma pulseira-celular de 7G, que enviava o feed de vídeo para um servidor nômade, que o analisava e enviava os dados de volta para ele. E nem precisava de uma antena sub-cutânea, pois ele era tão grande que o próprio corpo conseguia pegar o comprimento de onda certa do sinal da rede celular.

No início da ponte, os gêmeos Renault e Romuleau pareciam felizes montando o equipamento da operação. Eram o que se podia chamar de linha de frente da equipe de Jackie. O que era engraçado, pensou ela, pois Renault era tão franzino quanto uma garota de 6 anos. Mas era o mais habilidoso com um NERD - Navigating in Electronic Resources Device - e isso o tornava o preferido dela para as operações de quebra de firewalls e invasão de banco de dados. Romuleau era igualmente habilidoso, mas tinha menos experiência em usar o aparelho, porque gostava mais da parte de hardware. Isso o tornava o parceiro perfeito para Renault. Ambos eram capazes de montar uma máquina intrusiva, ligá-la, invadir um sistema corporativo e roubar o CPF de um executivo em poucos minutos, mas um gostava mais de montar, e o outro de executar.

Os outros três, ao contrário dos gêmeos, estavam muito impacientes. Beavis era o batedor dos Grells. Era sorrateiro e veloz, porém luta física não era nem de longe sua especialidade. Usava um monóculo verde sobre o olho esquerdo, mas que não tinha nenhuma ligação eletrônica. "É estilo", dizia ele. Junto com o inseparável boné - os outros nunca tinham visto o cabelo dele - e os fones de ouvido de seu MP3 portátil, o monóculo dava um ar jovial para o alto e magro batedor. Naquele momento, ele conversava em um tom inaudível com Petrov, tecno-médico. Foi ele quem operou os olhos de Claude em Acapulco. Quando o grupo precisou de um clínico, Claude acionou seu contato e desde então ele faz parte do grupo. Seu rosto austero traduzia exatamente seu temperamento: ele precisava ter sangue frio para ouvir os pedidos de ajuda de seus companheiros onde quer que estivessem, ir no meio do campo de batalha e curá-los com sua pistola de raios curativos - uma tecnologia africana que os americanos se apropriaram. Precisava, por isso, usar um amplificador auditivo super potente. Para conversar com ele, bastava sussurrar.

Ao lado dos dois, Miss On era a espiã. Sua especialidade era se disfarçar com hologramas faciais muito bem cuidados, e por isso usava de seu carisma e, obviamente, o fato de ser mulher para enganar os inimigos - e eventualmente até os amigos. Não estava disfarçada naquele momento, mas parecia querer fazer isso e sair dali. Seu cabelo curto, corte militar, e a cara fechada, faziam com que ela parecesse estar sempre de mau-humor, mas Miss On era, ironicamente, a mais brincalhã. Uma vez, em uma missão, se disfarçou de "Beavis", foi até o alojamento de Jackie e se insinuou para ela. A chefe do grupo foi tomar satisfações depois com o verdadeiro batedor, e ele ficou sem entender nada.

Os Grells estavam ali porque obtiveram uma informação de que uma carga valiosa, mais especificamente um Mini-HD contendo o código de uma IA que ainda não tinha sido liberada na net. Eles usariam o código para chantagear o presidente de uma multinacional chinesa a liberar os códigos dos softwares eleitorais americanos. O pretexto era para que a comunidade de software livre os auditasse, mas na verdade eles estavam trabalhando para o Partido Republicano dos Estados Unidos.

O comboio de escolta estava atrasado em 40 minutos, e o trapézio direito de Jackie já doía, como acontecia quando ela ficava tensa.

E ela raramente ficava tensa.

5 de ago de 2010

Alastramento

Era segunda-feira. Um dia naturalmente cinza. Um dia naturalmente silencioso, apesar do barulho infernal do tráfego lá fora.

Um dia mau-humorado.

Ele esperou pela condução no mesmo ponto de sempre. Tinha duas ou três opções de linhas para chegar ao trabalho, mas hoje nenhuma delas passou. Teve de pegar uma outra que o deixava mais longe do arranha-céu onde ficava seu escritório. Tentou pensar pelo lado bom, dizendo a si mesmo que precisava fazer mais exercícios do que a pelada do fim-de-semana.

Mas ele estava um pouco atrasado hoje. O peso da responsabilidade lhe doía os ombros. Só podia ser isso, porque pelada não se joga com os ombros. Tentou não ficar irritado. Procurou por alguma menina bonita dentro do ônibus. Ele sempre estava cheio, então era quase certo que haveria alguma.

No fundo do ônibus, alguns adolescentes ouviam música com o alto-falante de um celular. Depois que percebeu isso, custou a conseguir "não ouvir" a música irritante que saía daquele aparelho.

Perto da roleta, pessoas em pé seguravam na barra superior. Alguns poucos com óculos escuros. Muitos com seus solitários fones de ouvido, ouvindo uma música silenciosa. E literalmente todos de cara fechada, letárgicos, olhando para o nada.

Dava pra ver a curvatura descendente das sobrancelhas...

Tentou olhar para fora. O ônibus conseguia até andar rapidamente pela pista exclusiva, mas os carros faziam fila na pista lateral. A obra à frente era para melhorar a vida de todos, mas causava um transtorno imenso naquele momento. E isso já durava alguns meses.

Ele sabia que os ônibus teriam que passar para a pista lateral em algum momento. Congestionamento. Também do estômago: o pão integral tostado não tinha caído bem.

Estava difícil não ficar de mau humor.

No viaduto de acesso, mais carros e ônibus. Motoqueiros arriscavam a vida, apenas a parte superior do capacete passando bem perto das janelas do coletivo. A velocidade deste, por sua vez, foi ficando cada vez menor, até parar de vez.


Ali.


De algum lugar lá embaixo, subiu um ipê amarelo. É claro que ele já estava lá antes, mas foi só nesse momento que ele o percebeu. E, no alcance de sua mão, um ramo tão amarelo que parecia ser a única coisa colorida da segunda-feira. O mau-humor se dissipou.

No instinto, colheu. Olhou rapidamente em volta e entregou para a mulher mais próxima. Era a que estava segurando sua mochila.

Não disse nada. Apenas entregou, sorriu e voltou a contemplar o horizonte, agora verde.

Ela: susto. Dúvida, vergonha, dúvida. Hesitação. Sorriso sem-graça, para ninguém. Cheiro de flor de ipê. Pensamentos rápidos. Sentimentos cálidos.

Quando todos os outros à volta perceberam que se tratava de uma simples gentileza, na definição mais pura da palavra, tiveram a mesma reação.

O João, a Maria, o Antônio, a Fátima.

Se entreolharam, e os sorrisos se cruzaram.

Uma pessoa lá atrás soltou uma única gargalhada nasal.

A senhora que sentava do lado da presenteada sorriu de volta para ele.

Ele pediu a mochila de volta, agradecendo, desejando um "bom dia" sorridente. Deu sinal e desceu. Para um trabalho produtivo, como há muito não conseguia.

À noite, em casa, abraçou a esposa e disse que a amava - sem cobrar nada em troca.

E o psiquiatra da agraciada nunca a tinha visto tão animada e alegre - ele quase deu alta.

E o filho do João nunca havia recebido um abraço tão efusivo - finalmente sentiu seu pai próximo. E o marido da Maria nunca havia jantado com ela sem a TV ligada na novela - foi uma noite como há muito tempo não tinham. E os vinte e três alunos do Sr. Antônio nunca tiveram uma aula tão divertida - nunca aprenderam tanto. E a mãe da Fátima nunca viu a filha tão bonita e radiante - naquele dia, ela melhorou de saúde.


A noite daquela segunda-feira nunca foi tão florida e amarela.

13 de jul de 2010

Levanta-te...

I am not dead. Quite the contrary.

I live. I think. I am. Still.

Soon, I'll be complete. And colorful and living.

As I was someday.

No.

More than I was someday.

Someday.

Be.