22 de out de 2010

Poslúdio

Um ruído leve de vento é o único som da noite. Acima, um céu cinzento é o cenário para a rua deserta, abaixo da ponte. Os prédios em volta parecem todos abandonados, mas Jackie, a líder do grupo, sabe que nunca se pode confiar no que se vê no Anel Urbano. Ela era a especialista em inteligência e tática de guerrilha dos Grells, como eles gostavam de se chamar. "Somos livres como pássaros, mas nosso cérebro é tudo", dizia ela. Daí o nome.

Parou de limpar a sua bazuca portátil para observar Claude, seu imediato, especialista em minas terrestres e o "tanque" do grupo. Os olhos espelhados dele refletiam o céu: ele tinha substituído os originais por displays HUD de alta definição em uma clínica de tecno-cirurgia clandestina no México. Não tinha dinheiro para pagar um tecno-médico oficial. Ele parecia estar observando a rua, perpendicular à ponte abaixo deles, mas Jackie sabia que ele enxergava vários tipos de dados por sobre a imagem da rua, em tempo real; afinal, seus implantes tinham uma ligação direta com uma pulseira-celular de 7G, que enviava o feed de vídeo para um servidor nômade, que o analisava e enviava os dados de volta para ele. E nem precisava de uma antena sub-cutânea, pois ele era tão grande que o próprio corpo conseguia pegar o comprimento de onda certa do sinal da rede celular.

No início da ponte, os gêmeos Renault e Romuleau pareciam felizes montando o equipamento da operação. Eram o que se podia chamar de linha de frente da equipe de Jackie. O que era engraçado, pensou ela, pois Renault era tão franzino quanto uma garota de 6 anos. Mas era o mais habilidoso com um NERD - Navigating in Electronic Resources Device - e isso o tornava o preferido dela para as operações de quebra de firewalls e invasão de banco de dados. Romuleau era igualmente habilidoso, mas tinha menos experiência em usar o aparelho, porque gostava mais da parte de hardware. Isso o tornava o parceiro perfeito para Renault. Ambos eram capazes de montar uma máquina intrusiva, ligá-la, invadir um sistema corporativo e roubar o CPF de um executivo em poucos minutos, mas um gostava mais de montar, e o outro de executar.

Os outros três, ao contrário dos gêmeos, estavam muito impacientes. Beavis era o batedor dos Grells. Era sorrateiro e veloz, porém luta física não era nem de longe sua especialidade. Usava um monóculo verde sobre o olho esquerdo, mas que não tinha nenhuma ligação eletrônica. "É estilo", dizia ele. Junto com o inseparável boné - os outros nunca tinham visto o cabelo dele - e os fones de ouvido de seu MP3 portátil, o monóculo dava um ar jovial para o alto e magro batedor. Naquele momento, ele conversava em um tom inaudível com Petrov, tecno-médico. Foi ele quem operou os olhos de Claude em Acapulco. Quando o grupo precisou de um clínico, Claude acionou seu contato e desde então ele faz parte do grupo. Seu rosto austero traduzia exatamente seu temperamento: ele precisava ter sangue frio para ouvir os pedidos de ajuda de seus companheiros onde quer que estivessem, ir no meio do campo de batalha e curá-los com sua pistola de raios curativos - uma tecnologia africana que os americanos se apropriaram. Precisava, por isso, usar um amplificador auditivo super potente. Para conversar com ele, bastava sussurrar.

Ao lado dos dois, Miss On era a espiã. Sua especialidade era se disfarçar com hologramas faciais muito bem cuidados, e por isso usava de seu carisma e, obviamente, o fato de ser mulher para enganar os inimigos - e eventualmente até os amigos. Não estava disfarçada naquele momento, mas parecia querer fazer isso e sair dali. Seu cabelo curto, corte militar, e a cara fechada, faziam com que ela parecesse estar sempre de mau-humor, mas Miss On era, ironicamente, a mais brincalhã. Uma vez, em uma missão, se disfarçou de "Beavis", foi até o alojamento de Jackie e se insinuou para ela. A chefe do grupo foi tomar satisfações depois com o verdadeiro batedor, e ele ficou sem entender nada.

Os Grells estavam ali porque obtiveram uma informação de que uma carga valiosa, mais especificamente um Mini-HD contendo o código de uma IA que ainda não tinha sido liberada na net. Eles usariam o código para chantagear o presidente de uma multinacional chinesa a liberar os códigos dos softwares eleitorais americanos. O pretexto era para que a comunidade de software livre os auditasse, mas na verdade eles estavam trabalhando para o Partido Republicano dos Estados Unidos.

O comboio de escolta estava atrasado em 40 minutos, e o trapézio direito de Jackie já doía, como acontecia quando ela ficava tensa.

E ela raramente ficava tensa.