17 de mai de 2010

Inexistência

Nota: Levemente editada do manuscrito original.

O poeta do contemporâneo tem as mãos fracas.
Os dedos frágeis, o punho áspero.
O papel sumiu. O cheiro da tinta desapareceu.
E o tempo em que a caneta era mais forte que a espada.

Agora, o elétron sobe, ou desce. E isso basta.
A tensão é alta, ou baixa.
E os dedos frágeis e tensos.

Aqui, com a caneta preta sobre o papel amarelo,
doem-me as mãos.

Morda-me.

12 de mai de 2010

A Ilha - Parte Final

Três mil e quinhentos anos após a declaração da independência, a Ilha de Torom-Yidelm prosperava como nunca. A dinastia Gharod governou até a sua 12ª geração, quando o Rei Gharod XII morreu sem deixar herdeiros, tendo como parente mais próximo seu sobrinho Tapan Herayach. Ele subiu ao trono sob o nome de Rei Tonrad I, e sua dinastia deixara mais 21 governantes. O Rei Tonrad XXII morrera numa expedição às cadeias montanhosas do norte da ilha, pois fazia questão de liderar seus comandados no campo. Como a expedição nunca voltara, o conselheiro real Kour Atale indicou o primo do rei para o trono, e todos no reino concordaram. Dyndel Herayach assumiu o trono como Rei Oldrod I, mas sua dinastia, ao contrário das outras, seria curta.

Neto de Dyndel, o Rei Oldrod III não esperava que fosse enfrentar uma guerra civil durante seu reinado. Tudo porque o racismo, que nunca havia deixado de existir na ilha, mas estava enfraquecido, começava a ganhar força. Jutta, a capital era uma cidade essencialmente élfica. O povo já havia esquecido que o Rei Gharod I, o unificador, a tinha declarado capital por ser a cidade mais antiga e, por consequência, mais populosa e importante da ilha. Os elfos por todo o reino se achavam inconscientemente melhores do que os humanos, pois eram eles que moravam na capital, a cidade mais importante.

Quando um famoso comerciante humano foi encontrado à beira de uma estrada entre Jutta e Deera coberto de flechas élficas, as críticas abertas começaram. Os humanos, a sua maioria concentrados em Deera, diziam que os elfos eram assassinos sanguinários e que devolveriam na mesma moeda a qualquer viajante com orelhas pontudas que se aproximasse de Deera vindo de Jutta. Os elfos se defenderam, e disseram que aquele assassinato foi feito pelos próprios humanos numa tentativa de incriminar os elfos e rebaixá-los, para poderem tomar o poder e transferir a capital.

O comércio entre as cidades havia sido interrompido. Ninguém que não estivesse fortemente armado ousava andar pela estrada. A ilha estava com sua economia parada, e a população começou a diminuir. Jinn, a par do conflito entre as duas maiores cidades, se declarava neutra, mas havia pressão de ambos os lados para que se aliassem a eles.

O Rei Oldrod III fez de tudo para acabar com o racismo. Criou leis anti-racistas, que puniam as pessoas que espalhavam a palavra segregadora por todo o reino com a morte. Várias pessoas foram decapitadas, inclusive líderes intelectuais de grupos racistas. Preteridos, estes grupos começaram a se encontrar na clandestinidade. Todo o movimento era feito debaixo dos olhos do Rei, que nada pode fazer para evitar o golpe político de Deera. Eles se declararam independentes. A princípio, o Rei Oldrod III disse não aceitar, pois gostaria de resolver o impasse politicamente. Quando foi à Deera para um diálogo, humanos mercenários, que não sabia distinguir elfos de meios-elfos, e que ainda estavam sob as ordens de matar qualquer elfo que se aproximasse da cidade, abordaram sem dó a caravana do rei, que tivera toda sua escolta assassinada covardemente.

Isso bastou para que a Grande Guerra Civil fosse desencadeada, na qual humanos e elfos, que antes haviam lutado lado a lado pela independência da ilha, agora estava de lados opostos, brigando pelo controle de suas respectivas cidades. A Grande Guerra Civil durou apenas três anos, e nenhum lado saiu vencedor. As forças simplesmente se esvaíam, os exércitos ficavam cada vez menores até que não havia mais como guerrear. E, antitéticamente, a paz se instituiu à força.

Desde então, as cidades têm seus próprios governantes, e são chamadas agora de cidades-estado. Eventualmente, o racismo deixou de existir escancaradamente, mas alguns elfos - principalmente em Jutta - ainda conservam o sentimento anti-humano. As estradas nunca mais foram seguras, apenas comerciantes escoltados por vários guerreiros mercenários se aventuravam por ali. E, devido à falta de tráfego, populações de criaturas bestiais começaram a se espalhar por toda a ilha, desde simples kobolds e orcs até dragões cromáticos e metálicos.

Sylarila Orinitas, a grande regente de Jutta, deixara em sua família a herança do comércio, e desde então é a família dela que detém a maior parte do tráfego de suprimentos e especiarias entre as duas cidades.

Esta é a história perdida da ilha onde nasceu Lena Orinitas, a guerreira de duas espadas, descendente da regente e herdeira direta do maior comércio da cidade élfica de Jutta.

3 de mai de 2010

A Ilha - Parte 5/6

Como primeiro ato em seu mandato, Danmoro Orinitas Ergartai, que agora seria chamado de Rei Gharod I, instituiu o livre comércio entre as cidades, declarou Jutta a capital por ser a cidade mais antiga e iniciou a construção de uma terceira cidade, a nordeste de Jutta, a qual batizou com o nome de Jinn, em homenagem a um dos primeiros-ministros humanos da república velha.

No continente, aquilo foi visto como um ato de insurreição para alguns e como um ato de grandeza para outros. No novo parlamento, composto apenas de elfos e humanos agora, as opiniões se dividiam exatamente como na sociedade. E o que era pior: apesar de todos estarem fechando os olhos para tal fato, a divisão que acontecia era claramente racial. Humanos apoiavam a manutenção da colônia de exploração, apoiado por alguns elfos conservadores, enquanto que a maioria dos elfos queria que as cidades tivesse representação no parlamento continental, ajudados por alguns humanos liberais.

Não era um confronto racial, a princípio, mas aos poucos foi se tornando um. Na população, os embates do parlamento se refletiam no descaso das raças uma com a outra. Um certo preconceito que nunca havia existido. A guerra ainda estava longe, a convivência era extremamente pacífica, mas o preconceito só aumentava. A ilha continuava sendo explorada devido ao impasse no parlamento, e o sentimento separatista crescia cada vez mais, acima dos conflitos raciais do continente. A população local se achava diferente, pois os humanos e elfos insulares não brigavam uns com os outros como os do continente.

Tal crescimento acabou por culminar na declaração de independência de Torom-Yidelm. O Rei Gharod I comunicou ao parlamento o fato, que, para evitar uma guerra, nada pode fazer senão acatar a decisão. Porém, o preconceito, antes racial, passou agora a ser internacional: pessoas da ilha eram maltratadas no continente e vice-versa. A partir daí, a relação entre as duas partes ficou estritamente no comércio, e assim permanece até hoje, quase que como uma guerra fria ao contrário, um tratado de paz que existia na prática mas nunca fora assinado.

E a partir daí, os registros históricos da Ilha de Torom-Yidelm só citam o continente algumas poucas vezes.