5 de mai. de 2011

Viagem em Dígitos Binários

Transition, Concept.

Trial, Descent, Tribulation. Growth. Progress.

Beginning.

Discovery, Trepidation. Nurture, Exploration, Determination.

Control. Accomplishment. Realization.

Power, Id. Conflict, Ego. Humility. Super-Ego, Collective. Confidence.

Inspiration. Impetus, Strength, Bravery. Tenacity, Conviction.

Anticipation.

Triumph! Fortitude, Admiration!

Support? Pursuit.

Determination, Patience.

Desperation... Frustration... Anger...

Fall.

Sorrow...

Truth.

Departure, Arrival: Home.

Epiphany, Perception. Catharsis.

Illumination.

Completion.

End.

9 de jan. de 2011

Entrevista de Carlo Della Prenza à CdM

DA LUZ À ESCURIDÃO
A mudança de ares de Carlo della Prenza

O primeiro trabalho de Carlo della Prenza, intitulado "Feather Falling in Love" ("Caindo Suavemente no Amor", numa tradução livre) deu ao bardo de Waterdeep uma enorme fama. Clássicos como "You are the Flayer of my Mind" e "Penalty for Charming Saves" ficaram muito tempo nas listas de músicas mais cantadas nas tavernas de Faerun.

Com o lançamento de seu segundo álbum, "One Dense Illusion", muitos dos fãs se decepcionaram um pouco, pois trata-se de uma compilação de músicas mais pesadas, menos alegres que as do disco anterior. A crítica especializada, no entanto, só teceu elogios, dizendo que a nova fase de Carlo era sua "maturidade musical". O disco foi indicado como melhor do ano na categoria Alternativo no Waterdeep Music Awards.

A revista Clérigos da Música, através de uma versão especial da magia Sending criada pelos magos da redação, conseguiu entrar em contato com Carlo durante sua incursão no Underdark. Ele falou sobre a mudança de direção na sua música, as críticas ao seu mais recente trabalho e as influências que teve no Underdark. Ainda revelou que está trabalhando num terceiro álbum, que será ainda mais introspectivo que o segundo. Confira a entrevista abaixo.



Clérigos da Música: Olá, senhor Carlo della Prenza? Desculpe se te assustei.

Carlo della Prenza: Tudo bem, Lydia. Aqui embaixo estamos sempre tão atentos que praticamente nada nos assusta.

CdM: O senhor me reconhece?

Carlo: Mas é claro. Conheço a sua revista, e, naturalmente, a repórter mais bonita (risos). Presumo que querem uma entrevista.

CdM: Sim, é possível? Não sei se é um bom momento...

Carlo: Não se preocupe. Quando eu precisar de mais concentração, eu aviso a você.

CdM: Bom, então, bom dia para o senhor.

Carlo: É dia? Eu não saberia dizer, aqui é sempre noite e escuro. Bom dia pra você também.

CdM: Carlo, eu queria que o senhor falasse um pouco sobre o seu novo álbum, "One Dense Illusion". A crítica disse que você amadureceu em relação ao seu trabalho anterior...

Carlo: (pausa) Eu não diria que "amadurecer" é a palavra certa. Acho que eu endureci mais. Tomei mais pancadas na vida.

CdM: Por causa da sua experiência no Underdark?

Carlo: Certamente.

CdM: Mas quais foram exatamente os fatos que influenciaram tanto na composição deste álbum?

Carlo: Lydia, a vida na superfície é muito simples, eu diria até mais fácil, se comparada ao que vivemos aqui. À medida que eu e meus companheiros avançávamos, íamos ficando cada vez mais introspectivos e fechados. Parece-me que, aqui embaixo, a falta de alguns elementos que consideramos cotidianos na superfície nos torna mais "egoístas de pensamento", por assim dizer.

CdM: Que elementos seriam esses?

Carlo: Cores. Aqui é tudo cinza, até os monstros. Eu até queria ver um dragão vermelho ou verde só pra poder estimular meus olhos um pouco (risos). E também o sol. Sem ele, perde-se a noção de tempo. Horas parecem meses, e meses parecem anos.

CdM: Foi por isso que o senhor compôs "They Cast Enlarge in the Time"?

Carlo: Sim. Essa música fala sobre isso, como o tempo é ao mesmo tempo, absoluto e relativo.

CdM: E quem são "eles" no título da música?

Carlo: Ninguém específico. Mas talvez represente o Underdark, que, apesar de ser um lugar, sinto como se fossem milhares de pessoas invisíveis e silenciosas te observando a todo tempo.

CdM: De onde vem o título do álbum?

Carlo: Foi por causa do meu amigo, que Helm o tenha, Sengir Fanghor. Houve um momento em que chegamos a uma passagem lateral que estava fechada com uma ilusão, mas não era uma ilusão comum, pois mesmo sabendo que era uma, não conseguíamos atravessá-la. Ele disse que ela parecia "densa" demais. Foi então que eu tive a idéia.

CdM: A morte de Sengir também influenciou na composição, eu imagino.

Carlo: Sengir não morreu. Mas também não está mais entre nós. Depois que ele partiu, eu finalizei o disco com a última música.

CdM: Com este álbum, o senhor recebeu algumas críticas dos seus fãs anteriores, por causa da mudança do "clima" do álbum. O que o senhor acha disso?

Carlo: Eu acho que eles têm um pouco de razão. Não posso evitar, sou influenciado por minhas próprias experiências. Não tinha como fazer músicas alegrinhas e românticas como as que eu tinha feito antes. Não tinha clima.

(Nesse momento, Carlo olha subitamente para o lado.)

Carlo: Lydia, com licença, sim? Estão precisando de mim aqui, volte a me contactar em mais ou menos uma hora, ok?

CdM: Claro, senhor Carlo. Até logo.

Carlo: Até logo.

(A ilusão de Carlo della Prenza que flutuava na redação sacou um crossbow e sumiu. Uma hora depois, voltamos a entrar em contato. A imagem do bardo era diferente, ele possuía alguns cortes nos braços e uma flecha fincada num deles. Tinha uma certa dificuldade de falar e parecia muito fraco.)

CdM: Carlo, o senhor está bem?

Carlo: Não se preocupe, Lydia. Tivemos de... enfrentar alguns adversários aqui. Nada que eu-- que eu não esteja acostumado. Podemos prosseguir.

(Uma mão um tanto gorda apareceu na ilusão e tocou o ombro de Carlo. Subitamente a aparência do bardo melhorou e ele já falava normalmente).

Carlo: Ah, obrigado, Gottard.

CdM: Pois bem, o que os seus fãs podem esperar daqui pra frente?

Carlo: Eu estou trabalhando em mais um disco. Será um disco tão "dark" - ou, mais apropriadamente, "underdark" - como o segundo, mas dessa vez voltado mais para o interior, para os sentimentos, ao invés de experiências externas.

CdM: E pra quando está previsto o lançamento?

Carlo: Assim que eu terminar, mas não sei quando será isso. Como disse, a noção de tempo aqui embaixo é perdida completamente.

CdM: Já tem nome?

Carlo: Ainda não, mas com certeza terá uma mulher na capa (risos). Já tenho algums idéias. Não vou dizer pra não estragar a surpresa.

CdM: É claro. O senhor pretende voltar à superfície?

Carlo: Com certeza. Eu quero ver o sol de novo. A neve e as flores... E as mulheres bonitas da superfície. Estou cansado de monstros.

CdM: As notícias são de que o senhor anda com uma elfa muito bela...

Carlo: De fato, Ëarinë é muito bela. Mas é muito fechada. Inclusive, desconfio que ela seja "do mesmo time" que eu. Mas tudo bem, ela é companheira de trabalho.

CdM: Bom, então vou encerrando por aqui. Obrigada pela entrevista.

Carlo: Por nada, Lydia. É sempre bom falar com pessoas diferentes. Ainda mais sendo tão bela como você. Somente o fato de ver a sua ilusão flutuando na minha frente já me conforta um pouco.

CdM: (risos) Ora, muito obrigada, senhor Carlo.

Carlo: Quando eu voltar à superfície, gostaria de conceder uma entrevista exclusiva a você, se você quiser é claro.

CdM: ... sim, será um prazer. Obrigada.

Carlo: Por nada. Coloque uma foto minha bem legal na reportagem, hein?



FEATHER FALLING IN LOVE


1. Love has no Surprise Round
2. Please, Brake the Armor of My Heart
3. Carlo's Uncontrollable Hideous Happiness
4. The Tavern Waitress
5. Power Word: Love
6. Wild Magic for a Wild Girl
7. You are the Flayer of my Mind
8. Seduction is not a Spell
9. I See You Everywhere (The Mirror Image of You)
10. Penalty for Charming Saves
11. (Feather) Falling in Love



ONE DENSE ILLUSION


1. Damn Dire Rats
2. Don't Go Trolling on Me
3. The Grey People and The Grey Matter
4. Snakes and Pools (Goodbye, Little Cleric)
5. They Cast Enlarge in the Time
6. You've Returned Different, My Friend
7. Invisible Sunrise
8. Listen to Me!
9. The Son of the Eye
10. I Thought Hell Was Way Below [bonus track]

5 de jan. de 2011

Síndrome do Guarda-Chuva

Era comum até alguns anos atrás que, na temporada chuvosa, eu saísse de casa sem um guarda-chuva. Em parte porque eu não tinha um, e em parte porque, não sei porque cargas d'água (trocadilho não intencional) eu achava que não era necessário.

Muito bem, depois de alguns momentos com e sem guarda-chuva nos últimos dias, estou começando a revisitar este conceito.

Veja: nos dias em que eu não tinha guarda-chuva, eu sempre procurava abrigos e marquises para me proteger dela. Mas como não gosto de ficar parado muito tempo no mesmo lugar - a não ser naqueles dilúvios que causam enxurradas invadindo as calçadas - eu sempre vou "pulando" de marquise em marquise, e no caminho entre elas é inevitável molhar. Mas pelo menos é por um período de tempo curto, e sempre olhando o chão para achar o caminho menos molhado.

Eu chegava aos meus destinos um pouco mais molhado, mas uniformemente molhado - da cabeça aos pés. E nada que uma meia hora não faça evaporar.

Porém, nos dias em que eu estou com um guarda-chva, me sinto imune à água. Ando nas ruas como se tivesse fazendo sol. O guarda-chuva está longe de ser a proteção total das precipitações, mas o usamos como se fosse. Não escolhemos o caminho, vamos no caminho habitual dos dias secos. Não andamos mais rápido pra tomar menos chuva, é a velocidade normal.

O resultado é que, ao chegar ao meu destino, estou com a cabeça e o rosto completamente secos, mas com a barra das calças e o tênis como se tivesse sido mergulhados numa piscina. A mochila, que fica pra trás, um pouco além da área de proteção que o guarda-chuva oferece, está mais vulnerável à água e acaba tomando mais chuva também. Já enchi de rugas um livro que nem era meu por causa disso.

Eu disse no início deste artigo que eu revisitava o conceito de que um guarda-chuva não é necessário; mas pensando melhor, acho que é sim, desde que você o use como se não tivesse um. Mas lembre-se que tem um quando for se locomover, senão eles vão pra terra dos duendes que acham as coisas perdidas, transformam em clipes de papel e deixam em outro lugar para serem achados.

Mas isso é uma outra história.

1 de dez. de 2010

Canção à Lua Nova

Quando você voltar,
De uma manhã à outra eu sorrirei,
E sobre tenras flores dormirei,
Em teu seio e em meus sonhos,
E entre duendes, sempre risonhos.

Quando você voltar,
Na Terra nada se apagará.
Em toda a sua chama se lerá
A cor da vida que me cativou
Trazendo-me cá pra onde estou.

Oh! Lua de tantas canções e poemas,
De tantas metáforas, centenas,
De fases escondidas, nuas,
Outrora dando a cara nas ruas,
Rainha oculta de um reino escancarado,
Pequena luz de um dia ensolarado!

Volte, volte para a noite escura
Que as estrelas pedem tua cura;
Que eu (ai de mim!) te espero,
Cão solitário, uivo - Te quero...

Oh! Lua de prata espelhada, só,
Trocando seu pirlimpimpim em pó,
Lua dourada, avermelhada, de mel,
Ostentando um brilho único no céu,
Mãe protetora dos enamorados,
Encantadora dos seres encantados!

Volte, volte pra teu lugar de direito
Há estacas rodeando meu peito,
Que eu (ai de mim!) te rogo:
- Volta, volta, volta logo!

3 de nov. de 2010

Liara

A vista era linda lá de cima. A leste, dava pra ver, de maneira clara e cristalina, toda a alva orla da praia. O mar sem ondas mostrava a sua grandiosidade e, simultaneamente, uma calma instigante. Era lindo demais ver aquela imensidão plana, indo até onde a vista alcançava.

Em meio ao seu deleite visual, Liara percebeu três reflexos na água. Acima, elas praticamente faziam um triângulo perfeito. Lembrou-se da história das luas, contada a ela por Ani, seu pai.

"Labela é a lua superior. Ela possui uma cor amarelada, quase como se tivesse sido encoberta por uma neblina dourada. Ela é a maior das luas, e significa aquilo que se deseja ser, sem ofuscar os outros e trilhando caminhos próprios.

"Na base, a lua à esquerda e conhecida por Tímira. A cada 37 translações ela se esconde parcialmente atrás de Labela. Possui uma coloração acinzentada, quase escura. É a unica lua que pode ter seu brilho bloqueado pelas nuvens. E é a menor das luas. Significa aquilo que se acha que é, procurando abrigo nas horas difíceis e sem méritos proprios.

"A última das luas, à direita da base do triângulo, é chamada de Polina. Seu brilho é o mais forte de todos: um luar alvo, branco, ofuscante. É considerada a lua independente, pois não esconde nem é escondida por nenhuma das outras duas, porem é tocada por Labela e Tímira 5 translações após o eclipse delas. Significa o que se é de verdade: em harmonia com os outros e sempre emanando poder e sentimentos."

Uma lágrima correu pelo seu rosto. Ani era um pai maravilhoso, mas tinha épocas em que ficava estranho, principalmente apos a morte de Luana, sua esposa e mãe de Liara.

Voltou a admirar a paisagem. Do outro lado, as copas das árvores na floresta pareciam se unir e formar apenas uma única grande árvore. Estava a uma altura considerável para não distinguir as folhagens. Os tons de verde e marrom se uniam num degradè perfeito. Era um verdadeiro tapete.

Percebeu uma clareira na floresta. Liara assustou-se, pois sempre ficava ali a admirar a beleza daquele mundo, Faíne, as estrelas, as luas, o mar e a floresta. Jamais havia percebido aquela clareira...

Sem hesitar, Liara abriu suas asas de fada e saiu da nuvem na qual estava sentada, indo em direção à clareira desconhecida...

22 de out. de 2010

Poslúdio

Um ruído leve de vento é o único som da noite. Acima, um céu cinzento é o cenário para a rua deserta, abaixo da ponte. Os prédios em volta parecem todos abandonados, mas Jackie, a líder do grupo, sabe que nunca se pode confiar no que se vê no Anel Urbano. Ela era a especialista em inteligência e tática de guerrilha dos Grells, como eles gostavam de se chamar. "Somos livres como pássaros, mas nosso cérebro é tudo", dizia ela. Daí o nome.

Parou de limpar a sua bazuca portátil para observar Claude, seu imediato, especialista em minas terrestres e o "tanque" do grupo. Os olhos espelhados dele refletiam o céu: ele tinha substituído os originais por displays HUD de alta definição em uma clínica de tecno-cirurgia clandestina no México. Não tinha dinheiro para pagar um tecno-médico oficial. Ele parecia estar observando a rua, perpendicular à ponte abaixo deles, mas Jackie sabia que ele enxergava vários tipos de dados por sobre a imagem da rua, em tempo real; afinal, seus implantes tinham uma ligação direta com uma pulseira-celular de 7G, que enviava o feed de vídeo para um servidor nômade, que o analisava e enviava os dados de volta para ele. E nem precisava de uma antena sub-cutânea, pois ele era tão grande que o próprio corpo conseguia pegar o comprimento de onda certa do sinal da rede celular.

No início da ponte, os gêmeos Renault e Romuleau pareciam felizes montando o equipamento da operação. Eram o que se podia chamar de linha de frente da equipe de Jackie. O que era engraçado, pensou ela, pois Renault era tão franzino quanto uma garota de 6 anos. Mas era o mais habilidoso com um NERD - Navigating in Electronic Resources Device - e isso o tornava o preferido dela para as operações de quebra de firewalls e invasão de banco de dados. Romuleau era igualmente habilidoso, mas tinha menos experiência em usar o aparelho, porque gostava mais da parte de hardware. Isso o tornava o parceiro perfeito para Renault. Ambos eram capazes de montar uma máquina intrusiva, ligá-la, invadir um sistema corporativo e roubar o CPF de um executivo em poucos minutos, mas um gostava mais de montar, e o outro de executar.

Os outros três, ao contrário dos gêmeos, estavam muito impacientes. Beavis era o batedor dos Grells. Era sorrateiro e veloz, porém luta física não era nem de longe sua especialidade. Usava um monóculo verde sobre o olho esquerdo, mas que não tinha nenhuma ligação eletrônica. "É estilo", dizia ele. Junto com o inseparável boné - os outros nunca tinham visto o cabelo dele - e os fones de ouvido de seu MP3 portátil, o monóculo dava um ar jovial para o alto e magro batedor. Naquele momento, ele conversava em um tom inaudível com Petrov, tecno-médico. Foi ele quem operou os olhos de Claude em Acapulco. Quando o grupo precisou de um clínico, Claude acionou seu contato e desde então ele faz parte do grupo. Seu rosto austero traduzia exatamente seu temperamento: ele precisava ter sangue frio para ouvir os pedidos de ajuda de seus companheiros onde quer que estivessem, ir no meio do campo de batalha e curá-los com sua pistola de raios curativos - uma tecnologia africana que os americanos se apropriaram. Precisava, por isso, usar um amplificador auditivo super potente. Para conversar com ele, bastava sussurrar.

Ao lado dos dois, Miss On era a espiã. Sua especialidade era se disfarçar com hologramas faciais muito bem cuidados, e por isso usava de seu carisma e, obviamente, o fato de ser mulher para enganar os inimigos - e eventualmente até os amigos. Não estava disfarçada naquele momento, mas parecia querer fazer isso e sair dali. Seu cabelo curto, corte militar, e a cara fechada, faziam com que ela parecesse estar sempre de mau-humor, mas Miss On era, ironicamente, a mais brincalhã. Uma vez, em uma missão, se disfarçou de "Beavis", foi até o alojamento de Jackie e se insinuou para ela. A chefe do grupo foi tomar satisfações depois com o verdadeiro batedor, e ele ficou sem entender nada.

Os Grells estavam ali porque obtiveram uma informação de que uma carga valiosa, mais especificamente um Mini-HD contendo o código de uma IA que ainda não tinha sido liberada na net. Eles usariam o código para chantagear o presidente de uma multinacional chinesa a liberar os códigos dos softwares eleitorais americanos. O pretexto era para que a comunidade de software livre os auditasse, mas na verdade eles estavam trabalhando para o Partido Republicano dos Estados Unidos.

O comboio de escolta estava atrasado em 40 minutos, e o trapézio direito de Jackie já doía, como acontecia quando ela ficava tensa.

E ela raramente ficava tensa.

5 de ago. de 2010

Alastramento

Era segunda-feira. Um dia naturalmente cinza. Um dia naturalmente silencioso, apesar do barulho infernal do tráfego lá fora.

Um dia mau-humorado.

Ele esperou pela condução no mesmo ponto de sempre. Tinha duas ou três opções de linhas para chegar ao trabalho, mas hoje nenhuma delas passou. Teve de pegar uma outra que o deixava mais longe do arranha-céu onde ficava seu escritório. Tentou pensar pelo lado bom, dizendo a si mesmo que precisava fazer mais exercícios do que a pelada do fim-de-semana.

Mas ele estava um pouco atrasado hoje. O peso da responsabilidade lhe doía os ombros. Só podia ser isso, porque pelada não se joga com os ombros. Tentou não ficar irritado. Procurou por alguma menina bonita dentro do ônibus. Ele sempre estava cheio, então era quase certo que haveria alguma.

No fundo do ônibus, alguns adolescentes ouviam música com o alto-falante de um celular. Depois que percebeu isso, custou a conseguir "não ouvir" a música irritante que saía daquele aparelho.

Perto da roleta, pessoas em pé seguravam na barra superior. Alguns poucos com óculos escuros. Muitos com seus solitários fones de ouvido, ouvindo uma música silenciosa. E literalmente todos de cara fechada, letárgicos, olhando para o nada.

Dava pra ver a curvatura descendente das sobrancelhas...

Tentou olhar para fora. O ônibus conseguia até andar rapidamente pela pista exclusiva, mas os carros faziam fila na pista lateral. A obra à frente era para melhorar a vida de todos, mas causava um transtorno imenso naquele momento. E isso já durava alguns meses.

Ele sabia que os ônibus teriam que passar para a pista lateral em algum momento. Congestionamento. Também do estômago: o pão integral tostado não tinha caído bem.

Estava difícil não ficar de mau humor.

No viaduto de acesso, mais carros e ônibus. Motoqueiros arriscavam a vida, apenas a parte superior do capacete passando bem perto das janelas do coletivo. A velocidade deste, por sua vez, foi ficando cada vez menor, até parar de vez.


Ali.


De algum lugar lá embaixo, subiu um ipê amarelo. É claro que ele já estava lá antes, mas foi só nesse momento que ele o percebeu. E, no alcance de sua mão, um ramo tão amarelo que parecia ser a única coisa colorida da segunda-feira. O mau-humor se dissipou.

No instinto, colheu. Olhou rapidamente em volta e entregou para a mulher mais próxima. Era a que estava segurando sua mochila.

Não disse nada. Apenas entregou, sorriu e voltou a contemplar o horizonte, agora verde.

Ela: susto. Dúvida, vergonha, dúvida. Hesitação. Sorriso sem-graça, para ninguém. Cheiro de flor de ipê. Pensamentos rápidos. Sentimentos cálidos.

Quando todos os outros à volta perceberam que se tratava de uma simples gentileza, na definição mais pura da palavra, tiveram a mesma reação.

O João, a Maria, o Antônio, a Fátima.

Se entreolharam, e os sorrisos se cruzaram.

Uma pessoa lá atrás soltou uma única gargalhada nasal.

A senhora que sentava do lado da presenteada sorriu de volta para ele.

Ele pediu a mochila de volta, agradecendo, desejando um "bom dia" sorridente. Deu sinal e desceu. Para um trabalho produtivo, como há muito não conseguia.

À noite, em casa, abraçou a esposa e disse que a amava - sem cobrar nada em troca.

E o psiquiatra da agraciada nunca a tinha visto tão animada e alegre - ele quase deu alta.

E o filho do João nunca havia recebido um abraço tão efusivo - finalmente sentiu seu pai próximo. E o marido da Maria nunca havia jantado com ela sem a TV ligada na novela - foi uma noite como há muito tempo não tinham. E os vinte e três alunos do Sr. Antônio nunca tiveram uma aula tão divertida - nunca aprenderam tanto. E a mãe da Fátima nunca viu a filha tão bonita e radiante - naquele dia, ela melhorou de saúde.


A noite daquela segunda-feira nunca foi tão florida e amarela.

13 de jul. de 2010

Levanta-te...

I am not dead. Quite the contrary.

I live. I think. I am. Still.

Soon, I'll be complete. And colorful and living.

As I was someday.

No.

More than I was someday.

Someday.

Be.

17 de mai. de 2010

Inexistência

Nota: Levemente editada do manuscrito original.

O poeta do contemporâneo tem as mãos fracas.
Os dedos frágeis, o punho áspero.
O papel sumiu. O cheiro da tinta desapareceu.
E o tempo em que a caneta era mais forte que a espada.

Agora, o elétron sobe, ou desce. E isso basta.
A tensão é alta, ou baixa.
E os dedos frágeis e tensos.

Aqui, com a caneta preta sobre o papel amarelo,
doem-me as mãos.

Morda-me.

12 de mai. de 2010

A Ilha - Parte Final

Três mil e quinhentos anos após a declaração da independência, a Ilha de Torom-Yidelm prosperava como nunca. A dinastia Gharod governou até a sua 12ª geração, quando o Rei Gharod XII morreu sem deixar herdeiros, tendo como parente mais próximo seu sobrinho Tapan Herayach. Ele subiu ao trono sob o nome de Rei Tonrad I, e sua dinastia deixara mais 21 governantes. O Rei Tonrad XXII morrera numa expedição às cadeias montanhosas do norte da ilha, pois fazia questão de liderar seus comandados no campo. Como a expedição nunca voltara, o conselheiro real Kour Atale indicou o primo do rei para o trono, e todos no reino concordaram. Dyndel Herayach assumiu o trono como Rei Oldrod I, mas sua dinastia, ao contrário das outras, seria curta.

Neto de Dyndel, o Rei Oldrod III não esperava que fosse enfrentar uma guerra civil durante seu reinado. Tudo porque o racismo, que nunca havia deixado de existir na ilha, mas estava enfraquecido, começava a ganhar força. Jutta, a capital era uma cidade essencialmente élfica. O povo já havia esquecido que o Rei Gharod I, o unificador, a tinha declarado capital por ser a cidade mais antiga e, por consequência, mais populosa e importante da ilha. Os elfos por todo o reino se achavam inconscientemente melhores do que os humanos, pois eram eles que moravam na capital, a cidade mais importante.

Quando um famoso comerciante humano foi encontrado à beira de uma estrada entre Jutta e Deera coberto de flechas élficas, as críticas abertas começaram. Os humanos, a sua maioria concentrados em Deera, diziam que os elfos eram assassinos sanguinários e que devolveriam na mesma moeda a qualquer viajante com orelhas pontudas que se aproximasse de Deera vindo de Jutta. Os elfos se defenderam, e disseram que aquele assassinato foi feito pelos próprios humanos numa tentativa de incriminar os elfos e rebaixá-los, para poderem tomar o poder e transferir a capital.

O comércio entre as cidades havia sido interrompido. Ninguém que não estivesse fortemente armado ousava andar pela estrada. A ilha estava com sua economia parada, e a população começou a diminuir. Jinn, a par do conflito entre as duas maiores cidades, se declarava neutra, mas havia pressão de ambos os lados para que se aliassem a eles.

O Rei Oldrod III fez de tudo para acabar com o racismo. Criou leis anti-racistas, que puniam as pessoas que espalhavam a palavra segregadora por todo o reino com a morte. Várias pessoas foram decapitadas, inclusive líderes intelectuais de grupos racistas. Preteridos, estes grupos começaram a se encontrar na clandestinidade. Todo o movimento era feito debaixo dos olhos do Rei, que nada pode fazer para evitar o golpe político de Deera. Eles se declararam independentes. A princípio, o Rei Oldrod III disse não aceitar, pois gostaria de resolver o impasse politicamente. Quando foi à Deera para um diálogo, humanos mercenários, que não sabia distinguir elfos de meios-elfos, e que ainda estavam sob as ordens de matar qualquer elfo que se aproximasse da cidade, abordaram sem dó a caravana do rei, que tivera toda sua escolta assassinada covardemente.

Isso bastou para que a Grande Guerra Civil fosse desencadeada, na qual humanos e elfos, que antes haviam lutado lado a lado pela independência da ilha, agora estava de lados opostos, brigando pelo controle de suas respectivas cidades. A Grande Guerra Civil durou apenas três anos, e nenhum lado saiu vencedor. As forças simplesmente se esvaíam, os exércitos ficavam cada vez menores até que não havia mais como guerrear. E, antitéticamente, a paz se instituiu à força.

Desde então, as cidades têm seus próprios governantes, e são chamadas agora de cidades-estado. Eventualmente, o racismo deixou de existir escancaradamente, mas alguns elfos - principalmente em Jutta - ainda conservam o sentimento anti-humano. As estradas nunca mais foram seguras, apenas comerciantes escoltados por vários guerreiros mercenários se aventuravam por ali. E, devido à falta de tráfego, populações de criaturas bestiais começaram a se espalhar por toda a ilha, desde simples kobolds e orcs até dragões cromáticos e metálicos.

Sylarila Orinitas, a grande regente de Jutta, deixara em sua família a herança do comércio, e desde então é a família dela que detém a maior parte do tráfego de suprimentos e especiarias entre as duas cidades.

Esta é a história perdida da ilha onde nasceu Lena Orinitas, a guerreira de duas espadas, descendente da regente e herdeira direta do maior comércio da cidade élfica de Jutta.

3 de mai. de 2010

A Ilha - Parte 5/6

Como primeiro ato em seu mandato, Danmoro Orinitas Ergartai, que agora seria chamado de Rei Gharod I, instituiu o livre comércio entre as cidades, declarou Jutta a capital por ser a cidade mais antiga e iniciou a construção de uma terceira cidade, a nordeste de Jutta, a qual batizou com o nome de Jinn, em homenagem a um dos primeiros-ministros humanos da república velha.

No continente, aquilo foi visto como um ato de insurreição para alguns e como um ato de grandeza para outros. No novo parlamento, composto apenas de elfos e humanos agora, as opiniões se dividiam exatamente como na sociedade. E o que era pior: apesar de todos estarem fechando os olhos para tal fato, a divisão que acontecia era claramente racial. Humanos apoiavam a manutenção da colônia de exploração, apoiado por alguns elfos conservadores, enquanto que a maioria dos elfos queria que as cidades tivesse representação no parlamento continental, ajudados por alguns humanos liberais.

Não era um confronto racial, a princípio, mas aos poucos foi se tornando um. Na população, os embates do parlamento se refletiam no descaso das raças uma com a outra. Um certo preconceito que nunca havia existido. A guerra ainda estava longe, a convivência era extremamente pacífica, mas o preconceito só aumentava. A ilha continuava sendo explorada devido ao impasse no parlamento, e o sentimento separatista crescia cada vez mais, acima dos conflitos raciais do continente. A população local se achava diferente, pois os humanos e elfos insulares não brigavam uns com os outros como os do continente.

Tal crescimento acabou por culminar na declaração de independência de Torom-Yidelm. O Rei Gharod I comunicou ao parlamento o fato, que, para evitar uma guerra, nada pode fazer senão acatar a decisão. Porém, o preconceito, antes racial, passou agora a ser internacional: pessoas da ilha eram maltratadas no continente e vice-versa. A partir daí, a relação entre as duas partes ficou estritamente no comércio, e assim permanece até hoje, quase que como uma guerra fria ao contrário, um tratado de paz que existia na prática mas nunca fora assinado.

E a partir daí, os registros históricos da Ilha de Torom-Yidelm só citam o continente algumas poucas vezes.

29 de abr. de 2010

A Ilha - Parte 4/6

Os governantes das cidades insulares encontravam-se frequentemente, dizendo que eram assuntos comerciais e políticos para o bom andamento da ilha, que agora havia também sido rebatizada de Torom-Yidelm, em homenagem aos dois últimos primeiros-ministros da República Velha. Acklald Ergartai, regente de Deera, e Sylarila Orinitas, regente de Jutta, encontravam-se com tanta frequência que rumores começaram a aparecer nas duas cidades. Dizia-se que eles eram amantes. Ambos sempre negaram.

Porém, quando Acklald morreu e seu filho legítimo, Oldald, assumiu o poder, a relação política entre as duas cidades se afrouxou. Com Acklald, Jutta nunca fazia rotas comerciais com o continente - que ainda tratava a ilha como colônia de exploração - sem antes consultar Deera, e vice-versa. Agora, com o filho no poder, Deera não tinha participação nos dividendos de algumas das rotas comerciais de Jutta. Oldald, diziam os rumores, não era tão competente, ou tão influente, quanto o pai, mesmo sendo filho do grande líder espiritual da aldeia continental de Veromvor. Outros rumores, mais intensos, davam conta de que a relação não é mais a mesma pois Acklald e Sylarila eram realmente amantes.

Sylarila já estava velha, e com a iminente retirada da grande regente de Jutta do poder, a verdade veio à tona. Danmoro, um meio-elfo que habitava a cidade de Jutta, juntou um grupo à sua volta na praça principal da cidade e disse ser o herdeiro legítimo de ambos os tronos, pois era o filho da suposta relação entre Sylarila e Acklald, e era mais velho que Oldald. Um grande frisson tomou conta dos ouvintes, e a notícia se espalhou como o vento até chegar aos ouvidos dos regentes.

Porém, o frisson foi ainda maior quando ambos os regentes confirmaram a história. Oldald sabia da existência de seu meio-irmão, e anunciou que não esperava que fosse ficar tão pouco tempo no poder. Entregou o cargo a Danmoro e lhe desejou sorte. Sylarila aproveitou que já iria se retirar do poder e renunciou ao cargo de regente, anunciando que Danmoro era aquele que unificaria novamente a ilha para que ela pudesse prosperar. Parecia que era um plano que já havia sido arquitetado pela regente com seu amante.

Toda essa história, somada com o apelo dos ex-regentes para com o novo rei de Torom-Yidelm, cirou um sentimento nacionalista como jamais houve na ilha. Ao invés de toda a população estar se sentindo enganada, eles se sentiram mais confiantes e mais orgulhosos de terem nascido (já a maioria naquela época) e morado naquela terra.

24 de abr. de 2010

A Ilha - Parte 3/6

A Guerra dos Anões acontecia em duas frentes. No continente, os anões eram mais agressivos, pois seu primeiro-ministro havia sido assassinado a sangue frio. O restante dos "instrusos" da denúncia, humanos e elfos, foram aprisionados e mortos. Os anões queriam vingança e, liderados por Gorak Achdrad, irmão de Curak, o regente de Ormdend e líder das forças anãs na ilha, atacaram as principais cidades élficas, pois acreditavam que a maior força bélica viria dos "moradores-de-árvores". Em Radek'a, Curak apenas defendia sua cidade, pois Acklald e Sylarila utilizaram a crise no continente como pretexto para a guerra, apesar de todos saberem que era pelo controle das rotas comerciais da ilha.

A Guerra durou 11 anos, pois os anões, apesar de serem minoria, eram bravos guerreiros e fortemente disciplinados para a guerra. Porém, a maioria esmagadora da aliança entre humanos e elfos acabou por vencer a guerra na ilha. Ormdend fora invadida, e os anões foram massacrados. O exército da aliança não deixou nem mesmo mulheres e crianças escaparam, os anões foram exterminados. Alguns conseguiram fugir para a área selvagem, mas fatalmente sobreviveriam lá. Acklald e Sylarila venceram.

No continente, após a vitória da aliança, os anões se viram enfraquecidos. Rechaçados dos ataques às vilas élficas, pois não esperavam o exército humano pronto para o revide, os anões recuaram até ficarem presos em Whodough. Gorak lutou até o fim, dizem os registros, e morreu lutando. Ele foi o último anão a perecer na cidade portuária. Com Gorak morto, a Guerra tinha terminado.

Várias foram as consequências da guerra. No continente, todas as aldeias e cidades que eram de maioria anã foram rebatizadas. Todos os traços da cultura anã eram radicalmente reprimidos, e qualquer referência a eles a partir do fim da guerra era considerada um ultraje, uma heresia. O sistema político foi remodelado, com Dironu Lolis, de Nedine, alçando ao poder. Humanos e elfos se revezaram nos anos seguintes no cargo, agora único, de primeiro-ministro, o que mais tarde ficou conhecido como "República dos Magos Comerciantes", devido à habilidade humana com o comércio e a habilidade élfica com a magia.

Na ilha, Acklald e Sylarila continuaram no poder, porém cada um controlava uma cidade agora. Sylarila Orinitas ficou no comando de Jutta, que havia sofrido menos com a guerra, e Acklald Ergartai foi comandar a reconstrução de Ormdend, rebatizada de Deera. E, da mesma forma, quaisquer traços racias que faziam referência aos anões eram fortemente reprimidos. A sucessão, em ambas as cidades, passou a ser hereditária, o que significava que, a partir daquela época, Jutta seria uma cidade essencialmente élfica e Deera uma cidade essencialmente humana. Estranhamente, nenhum traço de racismo apareceu nos anos seguintes, pelo contrário. Várias gerações de meios-elfos, que eram raridade no continente, começaram a surgir, demonstrando a convivência pacífica dos dois povos.

19 de abr. de 2010

A Ilha - Parte 2/6

Após alguns anos de período regencial, a ilha de Radek'a começou a funcionar como uma colônia de exploração para o continente. Os suprimentos, matérias-primas, especiarias e plantas típicas eram tidos como relíquias por lá, inclusive gerando problemas de contrabando (principalmente por parte dos humanos). Esses itens eram caríssimos no continente, e tudo o que se achava na ilha era mandado para lá. Com isso, Kacz passou de um desenvolvimento para um regresso. A economia da cidade estava paralisada, a população diminuía. Isso tudo gerou um vontade separatista em alguns clãs da cidade, na maioria deles anões.Eles discordavam da forma como os regentes administravam a cidade e a ilha. Gonfrak nada podia fazer para representar o interesse de seus irmãos, pois Acklald e Sylarila estavam sempre com as mesmas opiniões, e sempre condizentes com as do continente.

Nesse cenário, a tensão entre os grupos raciais aumentava na ilha, e isso se refletiu no continente. Os anões estavam começando a querer uma separação, e muitos clãs abandonaram Kacz e rumaram ao sul. Lá, fundaram uma cidade portuária, Ormdend. Como detinham as tecnologias de navegação, puderam se comunicar com a outra cidade portuária, no continente, que também era habitada em sua maioria por anões: Whodough. Criou-se uma rota alternativa de comércio entre as cidades, além da estabelecida por Kacz.

Por fim, todos os clãs de anões já haviam saído da cidade, e por causa disso, Gonfrak se viu forçado a se retirar do conselho regencial da Kacz. Ele foi para Ormdend, e lá foi declarado primeiro-conselheiro da cidade, que era governada por Curak Achdrad, um anão que vinha de uma família de tradição guerreira.

A tensão no continente começou por influência dos problemas na ilha, mas cresceu para um patamar incontrolável no parlamento. Líderes anões protestavam ante a negligência dos primeiros-ministros com a situação em Radek'a, enquanto os líderes de humanos e elfos tinham opiniões parecidas, mas não tão semelhantes ao ponto de não se perguntar o motivo da união tão ferrenha dos dois líderes insulares de seus povos. Acklald e Sylarila estavam sempre apoiando um ao outro, às vezes até contra os interesses de seus povos.

A crise desencadeou-se de vez com a denúncia de influência maligna de líderes racistas do continente sobre Acklald e Sylarila. Membros parlamentares que eram a favor do remanejamento do conselho regencial insular descobriram um plano arquitetado e orquestrado principalmente por alguns elfos continentais para expulsar os anões da ilha e, posteriormente, do continente. Caso as denúncias se comprovassem, ao que parecia o plano corria muito bem, pois a tensão em Radek'a crescia ininterruptamente, ao ponto de as novas gerações já crescerem com o ódio racista insuflado em seus corações.

No continente, o parlamento se dividiu. Os autores da denúncia, em sua maioria anões, porém com a presença de alguns elfos e humanos, se juntaram os outros anões e passaram a frequentar a parte esquerda do parlamento. Humanos e elfos, à exceção dos denunciantes, ficaram à direita. Os primeiros-ministros passavam por constantes ameaças dos parlamentares das outras raças, que diziam que iriam derrubá-los do poder.

A situação se tornou insustentável quando um dos humanos que assinou a denúncia fora assassinado. A dúvida era se ele tinha sido assassinado pelos próprios humanos devido ao apoio aos anões ou se tinha sido assassinado pelos anões, que alegariam a má influência dele sobre lideranças da raça.

A guerra era iminente, e quando o primeiro-ministro anão também foi assassinado, o parlamento fora dissolvido e a guerra nem precisava ter sido declarada - ela já estava em andamento. Na ilha, os regentes Acklald e Sylarila decidiram mudar o nome da cidade para Jutta, pois Kacz era um nome de origem anã, e declararam guerra a Ormdend.

14 de abr. de 2010

A Ilha - Parte 1/6

Segue uma história que eu criei para um jogo que o Pedro mestrou há um tempo atrás. Espero que gostem. :)

Há 9500 anos, humanos, anões e elfos viviam em paz no continente, que até então era a única terra conhecida. O reino era governado por um conselho de três primeiros-ministros - um de cada raça, cuja sucessão seguia a hereditariedade. Havia ainda o parlamento, composto por líderes espirituais das várias aldeias e cidades, também divididos igualmente em três partes. Tudo funcionava em perfeita harmonia. Existia o racismo em pequenos grupos, mas o sistema político e econômico não dava brechas para as diferenças entre as raças. Perante a lei, todos eram iguais.

Quando engenheiros anões descobriram a navegação, os governantes decidiram explorar as águas supostamente infinitas a oeste. Decidiu-se que uma expedição, liderada pelo capitão anão Gonfrak Radek'a, e composta de membros das três raças, iria se lançar ao tenebroso Mar das Bestas Vermelhas. O mar tinha esse nome porque nele, acreditava-se, vagavam criaturas gigantes que matavam os invasores de seus territórios a sangue frio, avermelhando o mar. Porém, descobriu-se que tudo eram lendas infundadas, e bastou o deslocamento de alguns dias a oeste para que a ilha de Radek'a aparecesse, virgem, inexplorada.

A princípio, o capitão Gonfrak pensou ser um novo continente, dada a extensão da ilha. Mas a história do descobrimento tem uma lacuna nos registros. O que há de registrado depois é a fundação da primeira cidade insular, Kacz. Ela ficava alguns quilômetros a oeste da costa leste, cercada por uma floresta. Houve uma grande discussão, principalmente no parlamento, para saber se a ilha e a cidade teriam seu próprio sistema de governo, ou se teriam apenas representantes no parlamento.

Após vários anos de discussão, Kacz acabou por ter uma prefeitura própria, virando uma província do reino, quase uma colônia. Tentou-se, a princípio, instaurar uma república pequena, aos moldes do governo do continente, com três primeiros-ministros e um pequeno conselho. Mas, estranhamente, na ilha as diferenças raciais apareceram, e os elfos, apoiados pelos humanos, alegaram que ainda havia pouca população para ser representada através de parlamentares. Derrotados por maioria, os anões acataram a decisão de cada raça indicar um líder e os três seriam declarados regentes da ilha.

Os humanos indicaram Acklald Ergartai, que até então era um dos membros do parlamento continental, e líder espiritual da pequena aldeia de Veromvor. A representante dos elfos era Sylarila Orinitas, uma conhecida comerciante da cidade de Nedine, e que foi indicada pelo líder espiritual da cidade, Dironu Lolis, que era parlamentar. E os anões elegeram para representá-los o próprio descobridor e fundador da cidade, o capitão Gonfrak Radek'a. Os três regeram a ilha por muitos anos, até que as falhas do sistema econômico começaram a gerar um sentimento separatista em alguns clãs da cidade, que já crescia além de suas fronteiras estabelecidas.

12 de mar. de 2010

Horbag Domenescu - Parte 4/4

Nesse momento, a coisa mais estranha aconteceu. Quando toquei meu pai, ele se queimou e ficou fraco, caindo de joelhos no chão.

- Ha! Eis a prova, meu jovem! - bradou o velho, alegre.

- Não tem mais como escapar. Você agora é um clérigo de... LOVIATAR! - gritou, revelando seu símbolo profano e erguendo-o no ar. No mesmo instante, um relâmpago caiu sobre sua mãe, deixando nada mais que um amontoado de cinzas pretas.

Não pude me conter e avancei contra o velho.

- Ei! Canalizar o poder de Loviatar não é assassinar os outros de graça!

O mesmo fenômeno aconteceu. Porém, desta vez feridas profundas apareceram sobre a pele do velho, que urrou de dor e caiu estatelado no chão, mas com um sorriso no rosto.

- Muito bem, Horbag... --cof. Agora você é verda-- cof -- verdadeiramente um seguidor de Loviatar... Agora conclua -- cof -- o seu trabalho.

Vendo os dois homens no chão, minha cabeça rodopiou. Senti uma vertigem horrível, devido aos vários pensamentos que me vieram à cabeça. Quando me dei conta, o amuleto que eu havia achado estava na minha mão. Apesar de estar menos ferido, meu pai olhava horrorizado pra mim, enquanto que o velho, já nas últimas, parecia sentir um prazer indescritível.

Eu já não tinha mais dúvidas. O velho parecia escutar meus pensamentos, pois disse:

- A escolha... foi feita...

- Muito bem. Você morrerá por ter matado a minha mãe. Não importa. -- e fui até ele terminar o serviço, da mesma forma que comecei. Apenas toquei no rosto do homem, e seus olhos saltaram da órbita e explodiram. Sua cabeça ficou roxa e o resto do corpo branco.

Meu pai estava aterrorizado. As outras pessoas começaram a fugir de mim.

- Meu filho! Você mentiu pra mim! Porque não disse que havia achado isso?

- Eu não menti, meu pai. Apenas omiti... Pois me preocupei com você.

- E isso lá é preocupar? Devia ter dito!

- Não pai. Você não sabe nada sobre os deuses. Agora vejo que era uma bobagem me preocupar com você.

Meu pai pareceu desistir de argumentar comigo.

- ... vá embora, sua aberração! Você não é mais meu filho. Vá!

Não senti vontade de matar meu pai. Algo me dizia que ele já havia passado pela sua provação, pelo menos hoje. Então senti meu dever cumprido.

Peguei a armas e equipamentos do velho que eu tinha acabado de matar já ia saindo, quando o conselheiro gritou com suas últimas forças:

- Horbag! Me cure por favor! Você é um canal dos deuses agora, pode fazer isso!

Parei, mas não me virei. Esperei um momento, fiz meia volta e fui até o conselheiro, que continuava no chão, ao lado do monte de cinzas que antes era minha mãe.

Com um gesto, um ponto de luz vermelha começou a sair de meus dedos.

- E porque eu deveria? Você... Você me ensinou todas as coisas que eu nunca deveria ter aprendido.

- ... eu sei disso. Você deve cumprir--

- Agora meu destino está selado, e por sua causa. A sua hora chegou.

O conselheiro fechou os olhos e soltou o ar, como que desistindo. Então eu disse:

- Você merece...

Antes de terminar a frase, eu toquei o velho.

- ... morrer.

Sob o olhar aterrorizado de todos, saí da aldeia para nunca mais voltar.


PS: Perdão, não me lembro qual era o enredo desta campanha.
PS2: Este é o segundo personagem que posto aqui. Leu tudo? Deixe uma nota nos comentários!

9 de mar. de 2010

Horbag Domenescu - Parte 3/4

Na véspera de meu décimo nono aniversário, meu pai e eu estávamos fazendo o desjejum. Havíamos voltado ao local daqueles incidentes do meu nascimento, o que deixou meu pai apreensivo. Quando perguntei o que havia de errado, ele me contou toda esta história que eu conto aqui. A minha avaliação inicial foi que realmente tudo foi um sonho, ou talvez meu pai tenha previsto o aparecimento do aventureiro naquela noite, enfim. Nada demais.

- Às vezes os deuses nos mandam sinais estranhos, pai.

- Você anda conversando muito com o conselheiro. O que sabe sobre os deuses?

- Muita coisa.

A cara dele não ficou menos carrancuda com o meu sorriso.

- Relaxa, pai. Não vai acontecer nada amanhã. Vamos, termine seu desjejum e vamos à plantação. Temos muito o que fazer hoje.

O dia transcorreu sem maiores problemas. No fim da tarde, voltávamos do trabalho, quando vi uma pequena peça de madeira no chão. Pensei ser um dos instrumentos da colheita, mas era um pequeno chicote. Bem parecido com o das histórias de meu pai. Resolvi esconder pra que meu pai não se desesperasse. É bem provável que tenha sido o mesmo que ele achou, e que perdeu naquela mesma noite chuvosa aqui. Ele devia estar enterrado ali por todos aqueles anos.

De qualquer forma, fiquei intrigado, pois era a prova de que não tinha sido um sonho. Bem, talvez o homem teria sido uma alucinação. Na árvore que meu pai havia mencionado não estava escrito nada, por isso simplesmente guardei aquele amuleto e o escondi. Mas pensei muito em tudo aquilo. Comecei a acreditar que eu era uma espécie de escolhido. Mas escolhido por quem? E porquê eu?

No dia seguinte, porém, acordei com um grito de terror. Meus pais já haviam saído da barraca e estavam ajoelhados no chão. Do lado deles, um corpo. Minha mãe chorava. Quando me aproximei, meu pai gritou:

- É o conselheiro! Ele foi ferido! Precisamos salvá-lo!

Nesse pequeno intervalo de tempo entre a fala de meu pai e a minha resposta, muita coisa se passou na minha cabeça.

Pensei nas invasões orcs que nos deixavam sempre feridos e com, pelo menos, umas três baixas. Mas eles nunca me atacavam diretamente.

Pensei nos meus melhores amigos, de infância, que morreram por desnutrição. Aparentemente a qualidade do nosso grão não era boa o bastante para nossa subsistência. Mas eu nunca fiquei fraco.

Ao contrário, todos na aldeia ficavam frequentemente. E morriam por causa dessas doenças. Mas eu nunca fiquei doente.

Pensei na filha do velho conselheiro, que havia sido atacada por uma cobra, e morreu com as veias todas altas e roxas. Uma visão horrível.

E, finalmente, lembrei do sofrimento que a minha mãe passou durante o meu nascimento.

Todos os fatos trágicos que já aconteceram com nossa aldeia...

Me lembrei também do que senti perante esses fatos todos, e como eu ia cada vez mais absorvendo aquilo, ao invés de sofrer como todos os outros. Pra mim, aquilo estava virando uma rotina, até que passei a achar normal e até necessário que aquelas provações acontecessem. Até que, por fim, admiti que eu realmente gostava de ver o sofrimento dos outros.

Quando voltei à realidade, em uma fração de segundo, eu já sabia que realmente havia sido escolhido por um deus que fazia as pessoas sofrerem. Uma deusa. Por Loviatar. O chicote de nove pontas, a profecia, o velho misterioso do dia do meu nascimento. Tudo fazia sentido. Ela havia me enviado uma mensagem clara naquele momento.

Era eu quem devia levar o sofrimento necessário aos outros. Era uma missão nobre.

Por isso, a resposta a meu pai foi fria.

- É o conselheiro! Ele foi ferido! Precisamos salvá-lo!

- Não, meu pai.

Meu pai não podia acreditar no que havia ouvido.

- O quê? Como pode dizer isso, meu filho? Não vê que ele foi ferido por uma lâmina?

- Os deuses não erram, pai. Se ele foi ferido, é porque os deuses quiseram. Todos têm sua carga de sofrimento.

Meu pai ficou em silêncio, apenas me olhando, estarrecido.

- Sacrifiquem-no de uma vez - disse uma voz atrás de mim. Virei-me e vi o verdadeiro motivo do estarrecimento do meu pai.

O velho da noite chuvosa se encontrava à minha frente com uma adaga banhada em sangue.

- Você... Você feriu o conselheiro! Vai pagar por isso! - avançou meu pai, mas eu o interrompi.

- Espere, pai. Não lute com esse homem. Ele é um mensageiro divino.

- Exatamente - retrucou o velho. - Lembra-se daquela noite? Sim. Este mesmo filho que agora o detém havia sido escolhido 19 anos atrás. Ele tem sorte de ter sido escolhido, normalmente os humanos é que vão atrás dos poderes dos deuses.

Calei-me e evitei o olhar poderoso de meu pai. Eu não podia negar aquilo.

- Sim, meu jovem. Você sabe que foi escolhido. Os números... O símbolo que você achou... O sofrimento de seus entes queridos. Tudo se encaixa. Loviatar sorriu para você.

Meu pai olhou assustado pra mim.

- Você... Você achou o símbolo? Aquilo é um símbolo sagrado? De um deus?

Nesse momento, eu hesitei. Teria aquele homem ferido o conselheiro para cumprir a profecia? Ou ele era simplesmente um homem mau e eu estava delirando? Não, tudo se encaixava bem demais para que fosse delírio...

Todos os aldeões já estavam reunidos àquela altura, olhando as estranhas cenas. Algumas mulheres estavam desesperadas.

Meu pai avançou novamente, e desta vez eu não consegui detê-lo.

- Não! De jeito nenhum! Tome isto, seu velho mentiroso!

- Não, pai!

(continua...)

PS: Comenta aí, véi!

6 de mar. de 2010

Horbag Domenescu - Parte 2/4

No dia seguinte, meu pai se sentiu extremamente cansado. Minha mãe cotinuava a sofrer. Pensou na noite anterior e preocupou-se em saber se havia sido verdade o que havia passado. Procurou o amuleto e não o encontrou. Depois foi até a árvore e não viu os números escritos. E concluiu que tudo não passou de um sonho.

Mas minha mãe continuava a ter dores cada vez mais intensas e agudas.

A chuva continuou, e alguns aldeões já estavam ficando doentes, devido à falta do nosso plantio. Em uma das tardes, meu pai foi avisado por uma das mulheres que um aventureiro havia nos achado. A princípio, achou estranho ele estar sozinho e também de ter nos encontrado tão rápido. Também estranhou o fato de nosso conselheiro não ter levantado qualquer suspeita a respeito do recém-chegado, ao ponto de mandar todos se reunirem para recepcioná-lo.

Qual não foi a surpresa de meu pai quando viu que o aventureiro era o mesmo velho daquela noite. Ao ver a chegada de meu pai, o velho retribuiu seu olhar inquisidor com um sorriso e palavras amigáveis. Aparentemente, o conselheiro havia dito que sua mulher estava grávida e que o filho viria a qualquer momento, e o aventureiro, que dizia ter habilidades de parteiro, se ofereceu para ajudar. Meu pai nem teve tempo de responder, pois ele já ia se dirigindo para a barraca onde se encontrava minha mãe. Um outro ato estranho, já que aparentemente ninguém havia lhe indicado onde minha mãe estava.

Lá dentro, ela se contorcia em dor. Já não eram mais dores comuns, era como se todo o corpo de minha mãe estivesse tomado por dor. Ela estava com as pernas e braços rígidos, e gritava muito. O velho disse que isso pode acontecer de vez em quando com mulheres grávidas.

- Eu já vi casos em que as mulheres ficam até dez dias assim - disse.

De início, meu pai pensou ser só uma coincidência. Porém, o velho completou:

- Mas não se preocupe. Seu filho crescerá forte como um garanhão de dezenove anos!

Definitvamente, não era coincidência. O velho havia falado os dois números escritos na árvore.

- Bem, parece que não vai nascer agora. Infelizmente tenho que seguir caminho. Mas dê bastante líquido pra ela até o nascimento, pois ela perderá muito. E frutas também. A natureza e os deuses farão o resto.

Coincidência ou não, dez dias após seu início, a chuva parou. E meu nascimento veio com o primeiro raio de sol que conseguiu atravessar primeira brecha que as nuvens escuras do céu deram. O conselheiro da aldeia disse para meus pais que isso era um bom sinal, pois cheguei como o salvador da aldeia. Ele disse que eu trouxera o sol junto comigo e esperança para que vivêssemos por mais um pouco. Porém, meu pai sabia que isso não era verdade -- aquele homem misterioso da noite anterior, o amuleto, a profecia. Tentou demonstrar alegria pra não transparecer preocupação à mulher. E passou 19 anos criando o seu filho da melhor maneira possível.

PS: Se você leu tudo isto, não custa nada comentar, né?

3 de mar. de 2010

Horbag Domenescu - Parte 1/4

Nota: Essa é a história de um personagem MAU. Você foi avisado.
Nota 2: O jogo é ambientado em Forgotten Realms.


Há dezenove anos, meus pais eram agricultores felizes em uma pequena aldeia em Vaasa, chamada Kuchtarg. Na verdade, não sei se "aldeia" é o termo correto: éramos umas trinta pessoas vivendo num reino pelo qual onde orcs e meio-orcs iam e vinham. Até alguns aventureiros maus vinham nos importunar. Ou seja, tínhamos de mudar de lugar de tempos em tempos, até que aventureiros chegassem perto demais e, antes que pudessem nos descobrir e vir em hordas nos saquear, mudaríamos.

O que era estranho é que éramos nômades, mas nos mantínhamos mais ou menos na mesma região, quando poderíamos ir mais longe. Ou até mesmo sair de Vaasa e ir até Damara. Mas eu jamais poderia imaginar por quê não saíamos dali.

Havíamos acabado de sentar acampamento no nosso novo local. Deveria durar umas trinta luas até que mudássemos de novo. Deveria.

Na mesma noite, começou a chover. E a chuva durou mais do que o normal. Não conseguíamos plantar, pois o solo encharcado não favorecia. Assim, os homens da tribo foram obrigados a sair todas as manhãs para caçar e colher. Meu pai não pôde ir, pois teve que dar assistência à minha mãe, grávida de nove meses. Ela sofria de dores horríveis antes do meu nascimento, algo que era incomum.

Na noite do nono dia, todos se recolheram, mas meu pai ficou acordado. Disse que tinha um pressentimento que sua mulher ia dar à luz naquele instante. Hoje, mais velho, penso que quando ele me contou essa história, acho que na verdade ele queria era que o sofrimento dela -- e dele, por consequência -- acabassem. Porém, isso não aconteceu. Minha mãe continuou a sofrer as estranhas e intensas dores, que a impediam até mesmo de dormir. Mas não a meu pai, que acabou por adormecer.

Foi acordado por um estrondo. Pensou ter sido um relâmpago em uma árvore próxima, e colocou a cabeça pra fora da barraca. Viu uma figura escura se mexendo por entre as árvores, como que procurando algo. Pensou em acordar todos com medo de ser um aventureiro, mas a figura permanecia ali.

De repente, a silhueta parou, mexeu um pouco a cabeça como se tivesse percebido algo, e começou a vir na direção de meu pai. Um frio correu pelas costas dele, e por alguma razão ele não conseguiu se mexer. A figura havia se transformado em um homem velho, mas forte, que parou na frente da cabeça já molhada de meu pai e disse:

- Será que o senhor não poderia me ajudar? Estou procurando algo muito valioso para mim que caiu naquelas árvores e se afundou na lama.

Meu pai não respondeu. Ficou olhando o homem por alguns segundos.

Uma explosão repentina jogou meu pai para trás. Ele ficou meio atordoado e estava meio cego. Um leve zunido subiu em seu ouvido. Alguns segundos e um cheiro de queimado invadiu a barraca. Assustado, mas cauteloso, ele olhou pra fora da barraca de novo e viu o homem carbonizado, com algumas fagulhas ainda em seu corpo, e algumas marcas pretas no chão. Ele havia sido atingido por um raio.

Então, meu pai foi até as árvores onde viu o homem pela primeira vez, e, sem muito esforço, achou um pequeno chicote de nove pontas. Muito pequeno pra ser usado como arma, seria uma espécie de amuleto. Quando se levantou, viu nas árvores dois números escritos: 10 e 19. Não entendeu porque, mas começou a voltar à barraca para dormir de vez.

Ao se aproximar da barraca, porém, viu que as marcas haviam sumido, assim como o corpo. Teria tido uma espécie de alucinação? Estaria ele sonhando?

Intrigado, entrou na barraca e dormiu.

PS: Leu? O que achou? Comenta aí!

28 de fev. de 2010

As regras do Mau Mau Voador

O Mau Mau Voador deve ser jogado, idealmente, de 5 a 12 pessoas. Dois baralhos completos, com os coringas, devem ser usados.

Distribua 7 cartas, uma por vez, para cada um dos jogadores. As cartas restantes - o monte - devem ser colocadas no meio da mesa, com a face para baixo. A primeira carta deve ser virada para cima e colocada ao lado. Esta é a primeira carta do descarte.

O objetivo é descartar todas as cartas da mão. Quando um jogador possuir apenas uma carta na mão, é obrigado a dizer, em voz alta, "mau mau". Caso não o faça até que o próximo jogador jogue uma carta, os outros podem acusá-lo de não ter dito, e nesse caso, o jogador omisso deverá comprar 7 cartas do monte.

O jogo sempre começa no sentido anti-horário. Cada jogador, na sua vez, pode jogar uma carta de mesmo valor ou de mesmo naipe que a carta que está no topo do descarte. Ou seja, o primeiro jogador deve respeitar a primeira carta que foi virada do monte. Se ela for uma carta especial, o efeito se aplica (veja abaixo).

Caso o jogador não possua uma carta de mesmo valor, mesmo naipe, um valete ou um coringa (veja abaixo), ele deve comprar uma carta do monte. Se a carta servir, ele pode jogá-la. Caso contrário, perde a vez.

Existem algumas cartas especiais que geram um ou mais efeitos no jogo. Para exemplificar, vamos imaginar uma roda com os jogadores Alfredo, Beatriz, César, Daniele e Edmundo, no sentido anti-horário.

Ás - pula o próximo jogador. Ex.: se Beatriz joga um Ás, César deixa de jogar e a vez passa para Daniele. Se fosse no sentido horário, Alfredo perderia a vez e ela passaria a ser de Edmundo.

7 - o próximo jogador é obrigado a comprar 3 cartas. Caso possua outro 7, ele pode jogá-lo e passar o castigo para o próximo jogador, que também pode fazer o mesmo processo. Ex.: Edmundo joga um 7. Alfredo tem que comprar 3 cartas. Se Alfredo possuir um 7, ele pode descartá-lo e, nesse caso, Beatriz tem que comprar 6 cartas. Se ela tiver um outro 7, pode jogá-lo e César terá que comprar 9 cartas, e assim por diante. O jogador que comprar as cartas perde a vez.

9 - o jogador anterior é obrigado a comprar uma carta. Ao contrário do 7, o 9 não é cumulativo. Ex.: César joga um 9. Beatriz tem que comprar uma carta.

Valete - o jogador que descartá-la pode escolher o naipe da próxima jogada. O Valete pode ser jogado sobre qualquer carta, não sendo necessário respeitar o naipe ou o valor da carta do topo do descarte. Caso um jogador vença o jogo com um Valete, todos da mesa tem que comprar 1 carta do monte. Ex.: se Daniele joga um 4, Edmundo pode jogar um valete e dizer que Alfredo tem que jogar uma carta de copas.

Dama - inverte o sentido do jogo. Ex.: se Alfredo joga um 5, e Beatriz joga uma Dama, a vez volta a ser de Alfredo, e depois será de Edmundo, Daniele e César.

Rei - é a carta do silêncio. Sempre que um Rei for jogado, todos os jogadores estão proibidos de pronunciar quaisquer palavras. É permitido rir. O jogo segue normalmente, e só é permitido falar novamente quando outro Rei for jogado. Caso um jogador fique com apenas uma única carta durante este tempo, ele deverá, ao invés de dizer "mau mau", dar dois toques na mesa.

Coringa - funciona como o 7, só que ao invés de 3 cartas, o próximo jogador deve comprar 5 cartas. Caso este jogador possua um coringa na mão, ele pode jogá-lo para que o próximo tenha que comprar 10 cartas, e assim por diante. O Coringa pode ser jogado sobre qualquer carta. O jogo segue com o último descarte diferente de um coringa. Ex.: Edmundo joga um 3 de Ouros. Alfredo, não tem um 3, nem cartas de Ouros, mas tem um Coringa e o joga. Beatriz não tem um Coringa e deve comprar 5 cartas, perdendo a vez. César segue o jogo, devendo jogar um 3 ou uma carta de Ouros (a última carta antes dos Coringas).

Além das cartas especiais, ainda existem outras duas regras:

Roubar a vez - se qualquer jogador possuir uma carta igual à que está no topo do descarte, com exceção do Coringa, pode jogá-la, roubando a vez de outro jogador. Com isso, ele tem o direito de jogar outra carta. Ex.: Alfredo joga um 8 de Espadas. A vez passa a ser de Beatriz, que pode jogar qualquer 8 ou qualquer carta de Espadas. Porém, Daniele tem um 8 de Espadas e o descarta antes de Beatriz, roubando a vez. Agora, Daniele é que tem que jogar um 8 ou uma carta de Espadas. Se a cartas utilizada para roubar a vez for uma das cartas especiais, perde o efeito.

Dobradinha - se um jogador, na sua vez, possuir uma carta igual à que está no topo, ele pode escolher roubar a própria vez e descartar mais cartas, ou então aplicar a Dobradinha, isto é, o próximo jogador é obrigado a comprar 2 cartas do monte, mas não perde a vez de jogar.

Regra Opcional - A carta Osama

Antes da distribuição das cartas, uma carta é sorteada e mostrada para todos os jogadores. Esta carta é o Osama. Todas, exceto o Coringa, podem ser o Osama. Depois desse momento, a carta é colocada novamente no baralho e ninguém poderá mencioná-la pelo nome durante o jogo, ou fazer qualquer referência ao fato dela ser o Osama (ex.: apontar com o dedo e dizer: "olha!"), sob pena de comprar 4 cartas. A carta Osama deve ser guardada na mente.

O jogador que possuir o Osama pode jogá-la em cima de qualquer carta, não sendo necessário respeitar o naipe ou valor. Nesse caso, o jogador deve mencionar que está fazendo um "atentado", apontando para a carta, e pode escolher qualquer jogador da mesa para comprar 8 cartas. Caso este jogador escolhido possua um outro Osama, ele pode fazer uma "retaliação", e escolher qualquer um da mesa (inclusive o jogador que atentou contra ele) para comprar 16 cartas. O jogo segue com a última carta diferente do Osama como sendo a do topo do descarte.

O jogador pode, se quiser, jogá-la com o valor normal dela (ex.: caso seja um 7 de Espadas, o próximo compra 3 cartas). Se for assim jogada, deve respeitar a regra básica de mesmo naipe ou valor.

Caso um jogador descarte o Osama como sua última carta (ou seja, vencendo o jogo), todos os jogadores da mesa tem que comprar 4 cartas.